quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
SOCIOGRAMA [1968]
Merquides, Ismael e Irene.
Mas Irene não incluía Pedro entre seus três melhores amigos que, segundo
ela, seriam Rodolpho, Ivaney e Ignacio. Nenhum destes, porém, indicaria
Irene, pois Rodolpho iria mencionar Claudio, Filipe e José Carlos;
Ivaney citaria Maria do Carmo, Helena e Celso, enquanto que Ignacio
destacaria Sérgio, Luiz Antônio e Ismael.
Claudio, por sua vez, não considerava Rodolpho em suas afeições,
preferindo Ivaney, Roberto e Elvira; com Filipe sucedia o mesmo,
inclinado que era por Laércio, José Carlos e Helena; quanto a José
Carlos, omitiria também o nome de Rodolpho, sendo suas amizades Elvira,
Celso e Sérgio.
Os nomes citados por Ivaney não se lembrariam dele na escolha, já que
Maria do Carmo indicaria Elvira, Zezinho e Sylvia; Helena optaria por
Ignacio, Rodolpho e Laércio e Celso por Luiz Antônio, Roberto e Irene.
Ignacio era outro que não seria indicado por nenhum dos nomes que
apontaria: Sérgio escolheria Rodolpho, Irene e Ismael; já Luiz Antônio
elegeria Filipe, Claudio e Ismael...
O próprio Ismael tinha em suas preferências os nomes de Helena, Zezinho
e Merquides, omitindo portanto a Pedro, de quem seria o segundo
indicado.
Restaria então Merquides, o qual, a ter de escolher, preferiria Pedro,
Helena e Irene.
Em conclusão, talvez a única indicação recíproca fosse recair sobre os
nomes de Pedro e Merquides...
Estes, porém, não eram os mais amigos da classe.
Eram mais amigos fora da classe.
NOTA: Como outros textos de "Noxo", permaneceu inédito até ser divulgado
no sítio pessoal do autor, a partir de 2000.
sábado, 12 de dezembro de 2009
Johan: de apelido ‘deus’ (Parte 1 de 4)
Dentre as dificuldades, sobressaía-se o fato de Johan não entender quase nada de parâmetros; de certo ou de errado. Ele apenas compreendia o que era o ‘puro’ e o ‘misturado’, e percebia o apreciar. Por isso, muitas das palavras que inventou e, das coisas que fez pelas palavras: traziam novas sensações; entre elas, o oposto da apreciação (depreciação) e o olhar de espanto.
Mas ao término de apreciar, depreciar e se espantar com todas as coisas inventadas e nominadas, Johan estava cansado, só queria saborear o marasmo em algum lugar calmo e bonito. Para isso ele imaginou e inventou em pouco tempo o que queria: o comodismo – aos poucos seu vocabulário estava aumentando.
No dia seguinte, além de acordar cansado, depois de tanto descansar, Johan percebeu que seu humor não era o de costume, e que sentia uma leve sensação desagradável na parte extrema a cima do pescoço. Denominou de mau tudo aquilo que o acometia, mas mesmo assim, ainda sentia motivação para inventar novas ‘palavras e coisas esquisitas’.
Em seu lugar de paz – que havia criado um dia antes -, pensou em várias modificações. Faltavam cores e coisas que representassem essas cores. Algumas das coisas que idealizou e fez, utilizaram apenas cores puras. Nas outras - talvez fosse pelo cansaço -, Johan misturou a esmo suas idéias e tintas, criando algo que chamou de grotesco. Mas, confusamente o que mais chamou a atenção de Johan era que o puro nem sempre era o mais belo, o grotesco, dependendo de seu olhar extremamente sincero, agradava; isso confundiu sua percepção natural: foi quando ele teve sua primeira síncope.
Johan acordou horas depois, e não quis mais saber de criar nada, a sua única vontade era destruir todo o mal estar que pairava sua rotina, seu gosto. Nesse momento – apesar do sentimento de raiva e repulsa a tudo -, ele percebeu que precisava usar de um modo para ter certeza de que suas criações eram boas, necessárias e interessantes. Descobriu que dentro dele havia um ego, uma chama misturada de emoções precisando interagir com alguma coisa.
Johan passou o resto do dia pensando, mas não conseguiu definir o que era a primordial necessidade para entender seu ego, e à medida que pensou nisso, criou coisas sem saber e sem pensar na pureza ou na apreciação. Ele estava assustado, mas resolveu não desistir de encontrar aquilo que tanto procurava e não sabia o que era – Nesse segundo dia, ele já havia criado rebuscadamente, um caderno mental cheio de coisas e palavras que nominou.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
O LATIFUNDIÁRIO [1968]
do teto foram percorridos pela enésima vez. A cabeça do latifundiário
ergueu-se do travesseiro e o corpo da cama. Chinelos. Tapete. Janela.
Sol alto. Céu azul. Calor. Silêncio.
O latifundiário aciona seu mecanismo cerebral.
Relembra as palavras do avô: "Casa quanta caibas, roupa quanta vistas e
terra quanta avistas".
Pondera que foi um tanto além do preconizado pelo velho imigrante que
jaz sob a terra quanta avistava.
Hoje o latifundiário irá sobrevoar sua carne de helicóptero. Sobrevoará
suas frutas, seus legumes e seus cereais. Sobrevoará sua madeira e sua
água. Sobrevoará seu ar e sua fumaça.
Depois pousará em sua terra, concluindo que ela é mais vasta que seu
pensamento, mais extensa que seu conhecimento e mais ilimitada que sua
própria ambição. Em síntese, maior que sua vida.
A seguir, tornará à casa para prover sua necessidade de alimento e
sentar-se-á na cabeceira da longa e deserta mesa. Almoçará com Lucullus.
Trinchará sua carne, amassará seus cereais, cortará seus legumes e
partirá suas frutas. Derramará sua água sobre sua madeira. Soprará sua
fumaça no seu ar.
Depois disso, depositará a inércia de seu corpo sobre uma rede no
alpendre e perderá a noção do tempo.
Acordará com o céu vermelho.
Voltará para dentro e ligará seu vídeo. Apoiará suas costas e nádegas
numa poltrona e deixará que figuras e ruídos o penetrem e entretenham.
Uma súbita interferência silenciará o som e apagará a imagem. O
latifundiário irá sobressaltar-se.
O som então virá da janela, modificado e ampliado. Um zunido insistente,
quase musical.
O latifundiário espiará entre os caixilhos e avistará o OVNI brilhando
no céu já negro e descendo por trás das árvores mais negras.
O latifundiário sentirá medo. Estará só e indefeso à mercê dos viajantes
intergalácticos.
Será inútil buscar refúgio.
O viajante intergaláctico terá desembarcado e estará a caminho. Em
questão de instantes o latifundiário ver-se-á em sua presença.
Será conduzido sem reação para o interior do OVNI que o levará para além
dos limites tridimensionais de sua terra.
O viajante intergaláctico mostrar-lhe-á entretanto a inutilidade da
dimensão e a inexistência do tamanho.
Antes de juntarem-se as pálpebras, a pupila do latifundiário levar-lhe-á
o universo para dentro do globo ocular e o infinito para o interior do
cérebro.
E o latifundiário perderá sua condição e ganhará outra.
NOTA: Glauco Mattoso reuniu em 1975 seus rascunhos de adolescente
(escritos entre 1968 e 1969) sob o título de "Noxo: estórias", cunhando
um vocábulo enigmático que evocava "nexo", "nojo" e "paradoxo", talvez
alusivo ao nonsense que perpassava a maioria daqueles contos breves.
Avulsamente divulgados, no "Jornal Dobrabil" ou em periódicos de grande
circulação, tais exercícios ficcionais serviram de ensaio para
posteriores incursões do autor no terreno da prosa de invenção, também
chamada pelos críticos (como Pedro Ulysses Campos) de "ficção
experimental". Como livro, o conjunto destes textos permanece inédito.
"O latifundiário" saiu, além do JD, na antologia "Queda de braço".
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Jogador a mais
Estou sentando com a esperança nas costas
Crendo razoavelmente em minha virtude espiritual
Acariciando carneiros decepados, em meio a sonhos e insônias
Ocasionalmente condicionado a rotinas comuns
Incondicionalmente desamparado por meus pais
Iludida a mente e extirpado pela força dos governantes de meu país
Eu surto baixo meu ateísmo individualista banal
Eu oro exausto enquanto mais uma lágrima corre
Tapando o último Best seller com uma edição do dicionário
Eu me deito, me levanto...
Meu deleite não é santo!
Mesmo que eu faça fumaça com dinheiro,
E,
Mesmo que em um ataque de mártir engula até a garrafa
Só estou tomando e baforando o desespero...
Mostrando as cartas da mão
O azar e a pouca sorte que tenho
Perdendo alguns royalties para um crupier hipócrita
Eu saio chutado pela porta dos fundos
Como qualquer um,
Irrelevante a minoria que prospera,
Sou a maioria!
Mais um vegetal a ser apreciado em plena época de colheita.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Prôemio Marginal: Gillian e a perda de tempo
[A palavra repele o pensamento; que dispensa a subjetividade; que faz a merda continuar em sentido ao ventilador].
Por tudo isso, essa é uma simples história.
sábado, 17 de outubro de 2009
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
MULHERES - Charles Bukowski (Parte 1)
Eu tinha cinquenta anos e há quatro que não ia para a cama com uma mulher. Não tinha amigas. Quando passava por elas, na rua ou onde quer que as via, olhava, mas olhava sem desejo e com desinteresse. Masturbava-me regularmente, e a ideia de ter uma relação com uma mulher - mesmo em termos não sexuais - estava muito longe da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegítima, com seis anos de idade. Ela vivia com a mãe e eu pagava uma pensão. Casara-me aos 35, há alguns anos atrás. Este casamento durou dois anos e meio. A minha mulher divorciou-se de mim. Só estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo crónico. Morreu aos 48, quando eu tinha 38. A minha mulher era doze anos mais nova do que eu. Acredito também que ela esteja morta, embora não tenha a certeza. Durante seis anos, depois do divórcio, ela escrevia-me pelo Natal uma longa carta. Nunca respondi...
Não sei quando vi Lydia Vance pela primeira vez. Foi há cerca de seis anos, tinha eu acabado de abandonar um emprego de doze anos como funcionário dos correios, e tentava tornar-me escritor. Estava mais aterrorizado e bêbedo do que nunca. Debatia-me com o meu primeiro romance. Todas as noites, enquanto escrevia, esvaziava meia garrafa de whisky e duas embalagens de seis cervejas. Fumava cigarros baratos e batia à máquina, bebia e ouvia música clássica pela rádio até amanhecer. Impus-me um objectivo de dez páginas por noite, mas nunca sabia até ao dia seguinte quantas tinha escrito. De manhã levantava-me, vomitava, dirigia-me para a salada frente e olhava para o sofá para ver quantas lá estavam. Excedia sempre as minhas dez. Por vezes eram 17, 18, 23, 25 páginas. Claro, o trabalho de cada noite teria de ser limpo ou deitado fora. Para escrever o meu primeiro romance levei vinte e uma noites.
Os donos da casa onde então vivia, e que moravam nas traseiras, pensavam que eu era maluco. Quando acordava de manhã, estava um grande saco de papel castanho à porta. O conteúdo variava algumas vezes, mas habitualmente era tomates, rabanetes, laranjas, cebolas verdes, latas de sopa, cebolas vermelhas. De vez em quando eu bebia cerveja com eles até às 4 ou 5 da manhã. Habitualmente o velho desaparecia, e eu e a velha aproveitávamos para nos darmos as mãos, e às vezes até a beijava. À porta, dava-lhe sempre um grande beijo. Ela era terrivelmente enrugada, mas nada podia contra isso. Era católica e ficava muito gira quando punha o seu chapéu cor-de-rosa para ir à igreja ao domingo de manhã.
Penso que encontrei Lydia Vance na minha primeira leitura de poesia. Foi numa livraria da Kenmore Avenue, The Drawbridge. Estava, mais uma vez, aterrorizado. Vaidoso, mas aterrorizado. Quando entrei só havia lugares em pé. Peter, que se ocupava da livraria e vivia com uma preta, tinha uma pilha de notas à sua frente. –Merda-, pensei, -se eu conseguisse juntar sempre assim tantas, teria dinheiro suficiente para fazer outra viagem à índia!- Entrei e eles começaram a aplaudir. No que diz respeito à leitura de poesia, ia de facto ser de arromba. Eu li durante meia hora e fiz um intervalo. Ainda estava sóbrio e podia sentir no escuro os olhos presos em mim. Vieram algumas pessoas falar comigo. Depois, no momento em que eu estava mais livre, Lydia Vance aproximou-se. Eu bebia cerveja sentado a uma mesa. Ela pousou as duas mãos no rebordo da mesa, inclinou-se e olhou para mim. Tinha longos cabelos castanhos, na verdade muito compridos, um nariz proeminente e era estrábica. Mas desprendia vitalidade - sabia-se que ela estava ali. Eu sentia passarem vibrações entre nós. Algumas eram confusas e não muito boas, mas estavam ali. Ela olhou-me e eu devolvi-lhe o olhar. Lydia Vance usava um casaco de cowgirl em camurça, com uma franja à volta do pescoço. O seu peito era mesmo bom. Eu disse-lhe:
- Gostaria de arrancar essa franja do seu casaco podíamos começar por aí! -. Lydia afastou-se. Não tinha pegado. Eu nunca sabia o que dizer às mulheres. Mas ela tinha cá um traseiro. O fundo das suas calças de ganga moldavam-no na perfeição, e eu continuava a fixá-lo enquanto ela se afastava.
Acabei a segunda parte da leitura e esqueci Lydia exactamente como me esquecia das mulheres com que me cruzava na rua. Recolhi o meu dinheiro, escrevi em alguns guardanapos, alguns bocados de papel e depois fui de carro para casa.
Nessa altura ainda passava noites a trabalhar no meu romance. Nunca começava a trabalhar antes das 6 e 18 da tarde. Dantes, a essa hora, estava eu a carimbar e a selar no terminal dos Correios. Eram 6 horas da tarde quando Peter e Lydia Vance chegaram. Abri a porta. Peter disse:
- Olha, Henry, olha o que eu te trouxe -.
Lydia saltou para a mesa de café! As suas calças de ganga moldavam-na mais do que nunca. Ela sacudia para a esquerda e para a direita os seus longos cabelos castanhos. Era louca; era milagrosa. Pela primeira vez pus seriamente a hipótese de fazer amor com ela. Pôs-se a recitar poemas. Era muito mau. Peter tentou para-la:
- Não! Não! Nada de poesia rimada na casa de Henry Chinaski! -.
- Deixa-a continuar, Peter! -. Eu queria olhar para as suas nádegas. Ela fazia trepidar a velha mesa de café. Depois dançou. Agitava os braços. A poesia era péssima, mas não o corpo nem a sua loucura. Lydia saltou para o chão.
- Gostaste, Henry?
- De quê?
- Da poesia.
- Não muito.
Lydia ficou imóvel com os poemas na mão. Peter agarrou-a.
- Vamos foder! -, disse-lhe. - Anda, vamos foder!
Ela repeliu-o.
- Está bem -, disse Peter. - Se assim é, vou-me embora!
- Então vai. Eu tenho o meu carro -, disse Lydia. -Posso ir para casa sozinha.
Peter correu para a porta. Parou e voltou-se.
- Está bem, Chinaski! Mas não te esqueças do que eu te trouxe! - Bateu com a porta e lá se foi. Lydia sentou-se no sofá, ao pé da porta. Eu estava sentado a cerca de trinta centímetros dela. Olhei-a. Ela estava maravilhosa. Eu tinha medo. Estendi o braço para tocar os seus longos cabelos. O seu cabelo era mágico. Retirei a mão.
-Todos esses cabelos são mesmo teus? -, perguntei-lhe. Eu sabia que eram.
-Sim -, disse ela, - são meus.
Pus a mão sob o seu queixo, e muito desajeitadamente tentei virar a sua cara para a minha. Nestas situações nunca me sentia seguro. Beijei-a ao de leve. Lydia saltou.
-Tenho de me ir embora. Estou a pagar a uma baby sitter.
- Ouve -, disse eu, - fica. Pagarei eu. Fica mais um pouco.
- Não, não posso. Tenho que me ir embora. Dirigiu-se para a porta. Eu segui-a. Abriu a porta. Depois voltou-se. Pela última vez estendi-lhe o braço. Ela ergueu o seu rosto e deu-me um beijo fugaz. Em seguida afastou-se e depôs-me na mão algumas folhas dactilografadas. A porta fechou-se. Sentei-me no sofá com as folhas na mão e ouvi o seu carro arrancar.
Os poemas estavam agrafados, fotocopiados e intitulavam-se ELLLLA. Li alguns. Eram interessantes, cheios de humor e sexualidade, mas mal escritos. Eram assinados por Lydia e as suas três irmãs - todas elas jocosas, corajosas e sexy. Atirei as folhas e abri a minha garrafa de whisky. Lá fora estava escuro. A rádio difundia sobretudo Mozart, Brahms e Beethoven.
***



